Em cenário de mudanças climáticas, fenômenos extremos devem causar cada vez mais más surpresas – é hora de executar políticas públicas
Barco-hotel Carcará, que naufragou durante ventania no Pantanal | Foto: Divulgação
Lá vai uma chalana, bem longe se vai
Navegando no remanso do Rio Paraguai
Ah, Chalana sem querer tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas vai levando o meu amor.”
A canção Chalana foi escrita e musicada em 1943, quando Mario Zan – que a compôs juntamente com Arlindo Filho – visitou o Pantanal e se maravilhou com o que viu.
Talvez a realidade da paisagem nunca tenha estado tão oposta à descrição feita em sua letra como na sexta-feira, 15 de outubro. A data ficou marcada como o dia em que o vento derrotou a calmaria e instaurou uma tragédia no curso quase sempre manso do Rio Paraguai.
Era por volta das 14 horas quando o barco-hotel Carcará foi surpreendido por uma rajada de vento de 45 km/h que o adernou sobre as águas. Com baixo calado (profundidade a que se encontra o ponto mais baixo da quilha da embarcação, em relação à linha d’água), a chalana virou. Das 21 pessoas que estavam a bordo, 7 não conseguiram se salvar. Dois tripulantes e cinco turistas que voltavam de uma pescaria, goianos de Rio Verde, morreram.
A questão pode ter sido meramente uma fatalidade, mas é bem verdade que eventos climáticos extremos estão ocorrendo com frequência cada vez maior – e de variadas formas.
No contexto mundial, o Brasil sempre foi privilegiado em termos de recursos naturais e, também, em relação à baixa ocorrência desses fenômenos extremos. Os terremotos não passam de pequenos abalos, quase todos imperceptíveis; não há tufões nem furacões; tornados e ciclones são raros. De flagelos exclusivamente da natureza, há a seca no sertão nordestino.
Dentro da aparente bonança neste País, o Centro-Oeste se constituiu em uma região especialmente abençoada: a vegetação exuberante do Cerrado, berço das águas do território nacional, estações bem definidas entre o período seco e o chuvoso; ventos que no máximo causam redemoinhos e alguns temporais.
Essa era a cena nacional e a regional até meados do século passado. O que mudou não é difícil de adivinhar: a ação humana modificou drasticamente a paisagem – e isso agora traz consequências.
Para ficar em um exemplo bem recente, inédito esse porte e bastante emblemático, e que causou pavor em parte da população, por uma novidade em terras brasileiras: no último mês, tempestades de areia que antecederam a chegada de precipitações foram registradas pelo menos em quatro Estados: São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Foi durante uma ocorrência no território sul-mato-grossense, atingindo mais de dez municípios, que houve a tragédia com a chalana que carregava os goianos.
E sua causa mais provável tem tudo a ver, literalmente, com o jeito com que o homem manipula a terra, como explica a professora Gislaine Cristina Luiz, do Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) da Universidade Federal de Goiás (UFG). “O cenário de ventanias intensas é um fenômeno bastante comum no período do início das chuvas no interior do Brasil e ocorre quando uma área de instabilidade encontra uma superfície bastante aquecida”, explica. “São ventos que podem chegar a 100 km/h.”
Professora Gislaine Luiz do Iesa/UFG: “Não dá para culpar as chuvas ou os ventos, é o homem quem precisa agir | Foto: Arquivo pessoal
O que mudou, neste ano, foi algo que pode ter sido uma coincidência infeliz: a “entrada das chuvas”, por assim dizer, encontrou em várias localidades uma extensa área com o solo revolvido recentemente. E apareceram no horizonte assustadoras colunas marrons: eram tempestades de areia, algo comum na paisagem de desertos. “No interior de São Paulo, por exemplo, não sabemos se houve uma mudança no manejo das culturas da região, como a cana de açúcar, mas o fato é que havia uma ‘terra solta’, resíduos que facilmente subiram para o ar – com o mesmo cenário de instabilidade de anos anteriores”, diz Gislaine.
Veja íntegra da entrevista da professora Gislaine Luiz para o Jornal Opção:
Com doutorado em Geotecnia pela Universidade de Brasília (UnB) e atuação, como pesquisadora, na área de climatologia geográfica ela admite que ver um fenômeno inédito como aquele, se avolumando sobre a cidade, “instiga, amedronta”. De fato, brasileiros não são beduínos.
Nem goianos. E por isso foi assustadora, para quem mora por aqui, a ventania da sexta-feira, dia 1º de outubro, que atingiu parte do Estado e da região metropolitana de Goiânia, levantou muita poeira – embora não com a aparência de muralha que se viu em outros locais –, destelhou casas, derrubou placas, árvores e postes elétricos e afetando sobremaneira o fornecimento de energia durante todo aquele fim de semana.
E aqui a professora e pesquisadora do Iesa faz uma importante ressalva: “É preciso parar de culpar a chuva ou o vento pelos estragos. Como eu disse, essas rajadas sempre estiveram presentes nos ciclos e são comuns nessa época. O que mudou foi a paisagem, por ação do homem”, diz Gislaine.
É também pela mudança da paisagem que uma chuva um pouco mais densa, ainda que um grau abaixo do que pode ser considerado um temporal, causa muitos transtornos em uma cidade como Goiânia. “A superfície impermeabilizada está aumentando cada vez mais, o que faz com que a água não consiga penetrar as camadas do solo. Com isso a velocidade e o volume com que a enxurrada chega aos fundos de vale são cada vez intensos.”
Tragédia com barco-hotel e mortes em Goiânia
Eram por volta de 14 horas quando o barco-hotel Carcará foi surpreendido por uma rajada de vento de 45 km/h que o adernou sobre as águas do Rio Paraguai. Com baixo calado (profundidade a que se encontra o ponto mais baixo da quilha da embarcação, em relação à linha d’água), a chalana virou. Das 21 pessoas que estavam a bordo, 7 não conseguiram se salvar. Dois tripulantes e cinco turistas goianos, de Rio Verde, morreram.
A questão pode ter sido meramente uma fatalidade, mas é bem verdade que eventos climáticos extremos estão ocorrendo com frequência cada vez maior. Se são ou não consequências do aquecimento global? Essa é uma pergunta ainda sem resposta certa.
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