
Perseguição e destino final de Lázaro mostra várias camadas da nossa sociedade e de onde estamos numa escala civilizatória
Trinta e oito tiros acabaram com uma novela que já se estendia por quase três semanas, com um enredo que deixou aterrorizada a população do Entorno do Distrito Federal, especialmente os moradores de Cocalzinho de Goiás, município de população estimada em pouco mais de 20 mil habitantes, a 130 quilômetros de Goiânia e 110 quilômetros de Brasília. Entre o “estouro” da notícia e sua localização que mobilizou uma das maiores forças-tarefa da história da segurança pública de Goiás e do DF, Lázaro Barbosa também liderou os principais assuntos nas redes sociais.
Antes de parar para refletir alguns parágrafos sobre o que mostra, de nós e para nós, um caso rumoroso e violento como esse, é preciso fazer um breve histórico do personagem. Lázaro Barbosa de Sousa nasceu em 1988, filho de Edenaldo Barbosa e Eva Maria de Souza, no município de Barra do Mendes, centro do Estado da Bahia, com 13 mil habitantes. Segundo a mãe, era uma criança amorosa, que lhe “dava flores no Dia das Mães e a acompanhava à igreja – a família frequentava um templo evangélico.
O rapaz começou a preencher sua ficha criminal a partir de 2007, quando ele tinha ainda 19. Naquele ano, em sua terra natal, matou duas pessoas, foi ferido na ação, se entregou, mas fugiu da cadeia dez dias depois. Dois anos esteve foragido, até que em 2009 estuprou uma mulher e foi pego em seguida, por porte ilegal de arma. Preso, foi levado à penitenciária da Papuda, em Brasília. Foi condenado em 2011, passou ao semiaberto em 2014, por bom comportamento, mesmo tendo laudos que o descreviam como “impulsivo”, “ansioso”, “desequilibrado mentalmente” e com “preocupações” exageradas em relação a questões sexuais.
Em 2016, Lázaro aproveitou-se de um indulto na Semana Santa e não retornou mais ao presídio do Distrito Federal. Mas em 2018, foi preso mais uma vez, na cadeia de Águas Lindas de Goiás, no Entorno do DF. Tinha três mandados contra si. Difícil de segurar, fugiu no mesmo ano, por um buraco no teto da cela com quatro outros detentos e foi o único a não ser encontrado.
Até que reapareceu com a chacina promovida em uma chácara de Ceilândia. Lá, matou o o empresário Cláudio Vidal e seus dois filhos, com tiros e facadas. Sequestrou a mulher de Cláudio, Cleonice Marques, que foi encontrada morta três dias depois, no que seria um de seus esconderijos. Foi quando denunciaram que, semanas antes, Lázaro teria atirado contra moradores em uma propriedade em Cocalzinho, além de ter invadido outra casa também em Ceilândia (DF), onde todos os moradores foram obrigados a ficar nus, enquanto ele roubava seus pertences.
A partir de então, ficou conhecido como “o serial killer de Brasília”, ainda que não seja exatamente o termo adequado. O caso ganhou repercussão nacional e a polícia de Goiás e do Distrito Federal se mobilizaram, cada vez com mais homens. Ao fim da caçada – um termo destinado a animais, mas que não é de todo errado, dada a desumanização com que toda a história acabou se desenrolado –, havia quase 300 policiais. O caso não teve um final “feliz”, embora não possa dizer que não tenha sido previsível.
Na semana marcada pela morte de Lázaro, o portal The Intercept Brasil publicou uma interessante reportagem com o título Como Datena e os programas pinga-sangue ensinaram os evangélicos fundamentalistas a odiar. Os programas sensacionalistas educaram o brasileiro no ódio ao bandido e parecem ter alcançado de forma particular o coração dos fundamentalistas.
A perseguição e a morte de Lázaro mostram várias camadas da nossa sociedade e de onde estamos numa escala civilizatória. Essas escalas permeiam os diversos perfis de cidadãos.
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